Procura-se paciência
Quando é que perdi a vontade de escrever? Terá sito quando toda a gente começou a escrever? Ou quando toda a gente deixou de ler? - esta não que isso nunca aconteceu. Não vale a pena tentar arranjar desculpas nem porquês, quando a culta é toda e só minha. Preguiça, procrastinação, abrir páginas da Internet a mais, ter concentração a menos, tudo razões sem grande força mas que servem para arranjar outras prioridades que não a escrita. Sempre adorei escrever e houve um momento da minha vida em que achei que podia viver disso. A verdade é que o consegui de (certas) maneiras distintas, como jornalista, como copywriter, como escrevente de conteúdos e por aí a fora. Nenhuma delas 100% recompensadora e fui-me voltando para metiers mais lógicos e que têm mais probabilidades de pagar as contas. E aqui estou eu a trabalhar para os maus, para as grandes marcas, a querer pertencer ao mundo do Mad Man e com o secreto desejo de que um dia tudo vai ficar bem. Não sei muito bem o que isto significa mas a descrença em empresas tem pautado toda a minha carreira de de 6 em 6 meses lá vem a vontade de viver a cozinhar bolos. Foi esta mesma vontade que há um ano me levou a trabalhar num café, por cinco meses, decisão de que me arrependo tanto... Mas que, conhecendo-me como conheço, ainda estaria aqui atravessada se nunca tivesse sido posta em prática. "Vou para Londres procurar trabalho e, até encontrar o que quero, vou trabalhar num café giro". Não, não façam isso, só se tiver mesmo que ser. Aprendes muito, claro que aprendes, sobretudo a por um sorriso na cara sempre e a respeitar os que andam de bandeja na mão a tentar agradar quem nunca estará satisfeito. Ora, o tempo passa e 5 meses num café são 5 meses sem procurar o trabalho certo e mais sei lá quantos sem o encontrar. São cinco meses de cansaço, de conversas desinteressantes, de histórias de vida com as quais não te identificas, de unhas partidas e pés cansados. São cinco meses de café à borla, queimaduras nos ante-braços, sanduíches gourmet grátis e chefes que abusam dos seus pequenos poderes porque sabem contar paletas melhor que a média - e que tu precisas daquele trabalho para pagar a renda e o passe. São 5 meses em que te perdes e não sabes o que andas bem a fazer, que não te apetece partilhar as experiências profissionais (nem ir brindas com um copo de vinho ao fim do dia), que passas a ser uma pessoa menos interessante. E olhem, não sei. Sei que ficaram cá bem marcados ao ponto de não precisar de tatuagem ou de outra marca de guerra porque a experiência chega para ficares sem perceber onde é que afinal pertences. Aos que querem escrever, aos que querem viver à Mad Man, ou aos que querem uma vida simples sem ter que pensar muito sem ser a dose certa que faz acordar, despertar para a vida. Nenhumas das anteriores. Sinto-me a flutuar a lutar não sei bem porquê, cada vez mais perdida sem saber onde pertenço e cada vez mais afastada da minha identidade. Será Londres ou demasiados anos fora? Ou serei eu num domingo de manhã em que o sol teima em não aparecer e o café ainda não faz efeito? De certeza que a culpa é do café. Deste e do outro.
Comentários
Enviar um comentário