Tem?

Bloqueio. O hábito é tanto e a rotina é mais que não sei o que fazer quando não tenho nada planeado. Londres consegue ser tão bruta quanto as pessoas. Números, somos números que aqui andamos e se não fizermos o que é suposto há-de vir alguém que fará melhor. Desengana-te tu. Não és especial, nunca foste e se pensaste que eras os teus pais enganaram-se. Não aqui, aqui não há espaço para a normalidade, quando mais para se ser especial. Tem que se ser e pronto, seguir a rotina, os e-mails, as reuniões e não queixar que isso é tempo perdido e não queremos isso. Isso mesmo, porque o tempo passa a correr.

Cheguei a Londres há 2 anos como uma visão quase tão romântica como a que com que fui para África. Já devia ter aprendido que os romances são para as pessoas bonitas com um metro e oitenta, cabelos longos e olhos rasgados, não para meias lecas brondes com olive skin. Olhando de fora, tudo parece bem, até perfeito, embora um género com muito filtro do Instagram. Mais trabalho e menos filhos, mais férias e menos anéis, menos família e mais brunches. Não parece mau de todo e até bem melhor que a média mas mesmo assim não chega, há algo que falta. E não, não são férias, nem um cão, nem a Costa ou o pastel de nata, a casa com vista ou a bicicleta de 2 quilos. Tem que haver mais que isto.

Isto hoje não me sai da cabeça. Tem que haver mais que isto, que vender manteiga, meter putos a beber leite, fazer as pessoas seguirem do Dakar ou almoçar numa pop-up da moda com hipsters a contar calorias e com medo do gluten. Tem que haver mais que isto, de viver no bairro giro com nome francês, ir de bike para o trabalho (e não ter que meter a vista dentro do metro), sair a correr para o yoga (calma, yoga flow sff), ler e-mails e mais e-mails e ocupar metade do cérebro - ou da paciência - com factos sobre o fantástico mudo da gordura (literalmente, não fosse manteiga gordura). Tem que haver mais que isto, que ser uma PPT guru, falar não sei quantas línguas mal e dar recomendações sobre o que os outros devem ou deviam deixar de fazer. Com classe mas pouco estilo.

Mas quem sou eu para dizer o que quer que seja? Aspirante da aspiração, soldada do capitalismo, servente da Internet, cidadã da cidade do mundo que suga anos a cada dia que passa. Quem sou eu para continuar a achar que um dia vou mudar o mundo e nesse dias as pessoas vão ser mais honestas, o sol mais amarelo e os dias menos cinzentos? Ninguém, mas tem que haver mais que isto.

Comentários

  1. Isso tudo e mais. Nova Iorque igual a Londres. Mas sabes? Tanta pergunta para nada. Tens tudo dentro de ti. **

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Tchim tchim

Primeiras vezes