Ainda não é fim do ano mas aqui vai

Já não me sinto nada isto de afro-londoner, muito menos desempregada há 6 meses, até porque não é verdade. Na verdade, não sei quem sou neste momento. Cheguei a Londres há cerca de 8 meses - não vos custa mais ler que a mim escrever mas é a pura verdade- e desde aí muita coisa aconteceu e muita mais não aconteceu. Até agora só vivemos em duas casas ( uma média bem inferior à de Moçambique, o que é positivo) e eu tive apenas 3 trabalhos - se pensar bem, acho que em Moçambique os coleccionava. Cheguei e, como alguns de vocês seguiram e outros nem por isso, tive umas quantas entrevistas, nas quais cheguei até à última fase mas depois não fiquei: optaram sempre pela pessoa inglesa, com UK experience - oh meus amigos, lembrem-se disto que é verdade, isso da descriminação também há cá nesta terra cosmopolita. Posto isto, parti para a solução mais simples e imediata e fui procurar trabalho num café. ( triste) Desafio superado em cerca de duas semanas. Acho que quando nos pomos a jeito, acabamos sempre por ser apanhados na curva, isto em bom português. É certo que não era um café qualquer, não, e, por muito estranho que possa parecer sei que um dia vou tirar qualquer coisa disto e deixar de ver esta experiência como "5 meses perdidos", como tem dias em que insisto em chamar. Aprendi imenso sobre café e chás e chocolate quente e hábitos de consumo e homens e mulheres de fato e ingleses e lituanos e mais sei quantas nacionalidades. Aprendi também que ter sonhos é um bom ponto de partida mas que por si só não chega, infelizmente, e que é preciso lutar muito nesta vida. Aprendi que eu dia estás a reclamar que o café vem frio e que, no dia seguinte podes estar a ter que refazer um outro que saiu quente demais. Aprendi que para haver riqueza terá sempre que haver pobreza e que um dia és chefe e no outro podes estar no fundo da cadeia. Aprendi isto tudo sim, e ainda mais, sempre com humildade. E dei de caras com muita realidade paralelas as quais ignoramos na totalidade, pelo menos até sermos obrigados a vê-las. De facto, para uns estarem bem tem que haver outros que não estão tão bem. Para termos o nosso cafezinho de manhã, alguém teve que abdicar de mais horas de sono do que nós. Para termos o nosso casaco quentinho da Top Shop a menos de 100 libras alguém tem que viver muito mal. E por aí a fora.
Posto tantas dicotomias, tantas injustiças e tanta loucura neste mundo, ponderei ir viver para o mato. Brincadeirinha que eu cá sou uma miúda de cidade - já dizia o meu pai- com um fascínio tão grande por leões bebés como pela Tate. Mas ponderei mudar a minha atitude face ao mundo, tal como não comer em cadeias e evitar as grandes marcas de consumo - se vivi 3 anos em África sem Zara nem Starbucks, talvez seja possível. E voltei a ponderar e a pensar os pros e contras de tão extrema decisão. E conclui que, tal como comer apenas orgânico ou ser vegan, para mim não faz sentido viver à margem dos outros - sempre que vou a casa de alguém, já é uma chatice não comer carne, nem quero imaginar o que seria se só comesse rucula biológica. Extremismos face a consumo são como todos os outros, sejam eles políticos, religiosos e futebolísticos ( leram bem) e eu não sou a maior fã dessas coisas. Então pensei ainda mais e decidi continuar a viver guiada pelos meus princípios, aqueles que me acompanham onde quer que viva e que, atenção, não foram assim tão fáceis de construir. AMOR, RESPEITO, PAZ e SONHOS.
E é isto. Segunda-feira começo o meu próximo desafio profissional ( que a seu tempo direi se tanto serve para mim como eu sirvo para a agência) e continuo nos freelancers - just in case de precisarem imenso dos meus competentes serviços de estratéga, copy, traduções de lifestyle e bolos sem ovos.
Beijinhos e abraços

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