Um dia (não) são dias
Um dia vou voltar para casa. Nesse dia as pessoas vão voltar a perceber o que digo à primeira e não vão dizer "drop this", "do that" ou até o poderão dizer mas vai ser em português e eu saberei como me defender. Em inglês não sei - confesso que nem sei se algum dia vou saber, sinto-me como uma criança que vai ter o teste avaliado por uma caneta encarnada e não por um professor. Espero que um dia essas pessoas percebam que invento palavras porque sou mesmo assim, em português, em inglês, em chinês, o qual que não sei falar mas se soubesse de certeza que faria o mesmo. Um dia vão perceber como a rapidez é inimiga da perfeição e que para se ser criativo tem que se ser disléxico e que ser-se disléxico é apenas uma forma de não seguir as regras, pelo menos não todos os dias. Seguir as regras cansa, a mim pelo menos cansa. Por isso um dia vou voltar a casa. E aí vou dizer porra para esta merda toda que às vezes é viver fora. Nesse dia também vou ver os meus amigos, os que casaram e os que não (e olhem que chega a ser injusto, é verdade, só me vê quem se casa), os que já tiveram o primeiro e segundos filhos, os pais, os tios e as tias, até os avós, a irmã e as vizinhas. Hoje ainda não é o dia mas gosto de pensar que cada vez está mais próximo. E nesse dia, claro, vou ter saudades desta merda toda. Em bom português.
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