Bom tempo, bom café e uma bike

Ano novo, vida nova. Era bom ser tão simples de fazer como é escrever. As férias em Portugal tiveram longe de ter este nome, pelo que mais vale deixá-las por lá. Já cá, a vida começa com um doçura estranha, mais amarga, tipo banana quando ainda está verde, sabem? Também sentem que a digestão custa mais a fazer?
Planos que não avançam, sonhos que não se concretizam, ideias que vão e vêem mas temem em ficar. Estes últimos dias têm dado que pensar, na verdade um pouco como todo o último ano. Tanta coisa que mudou, embora ainda tenha a esperança de voltar a sentir-me mais livre e a querer voltar a abraçar o mundo como se não houvesse amanhã.
Há exactamente um ano vivia em Moçambique e era Verão. Tinha um bom trabalho, uma boa velha casa com vista para o mar, um grupo enorme de amigos que sabiam a família. Em poucas palavras, uma vida estável dentro do possível, num país que não conhece a estabilidade mas que conhece o calor, a praia e a boa vida.
Nessa altura, talvez até antes, percebi que já não era isso que procurava e decidi mudar. Pensei, pensei mais, partilhei, procurei, lutei. E vim para Londres. Se por um lado as decisões são mais simples quando somos só um, quando somos dois sabem melhor e acreditamos que tudo é possível. E em certa medida foi. Tivemos a coragem de ir embora sem olhar para trás e abrir os braços para o futuro incerto. Nova cidade, novo país, novo continente. Do 8 ao 800 em menos de nada, literalmente.
Já cá, na casa nova que insistia em não ser casa, a luta começava devagar, pé ante pé mas sempre com a estrelinha a brilhar. Seguiram-se as primeiras entrevistas, os primeiros copos com os conhecidos que poderiam virar amigos, as conversas sobre a vida, a descoberta, a mente disperta. Os sonhos cresciam mas a realidade não acompanhava. Arranjei um trabalho temporário, no café - vocês estão fartos de saber a estória pelo que poupo em pormenores o que não ando a poupar em preguiça. E estive lá 5 meses. Sim, cinco meses - por extenso- que é para perceberem quão longa a coisa foi. O entusiasmo inicial ( afinal, sempre quis trabalhar num café após ter escrito sobre tantos) foi dando origem ao corpo cansado, à alma sem energia, ao cabelo baço. Já nem as aulas de yoga ajudavam a recuperar a energia. As olheiras cresceram, o calo também - tipo aquele do lápis da primária mas do outro lado, por causa do jarro para aquecer o leite - mas a esperança parecia diminuir e era preciso mudar isso. Voltei a candidatar-me para a minha área em fuerza bruta. Duzentas? Se calhar menos, não sei umas 150. E entrevistas? 23, sem contar com as com headhunters, os maiores charlatões da sociedade capitalista depois dos vendedores de carros. Centenas de e-mails sem resposta, vários para as mesmas pessoas. Três quase trabalho falhados, que ainda doem um bocadinho, ali no cotovelo cada vez que alguém consegue um novo. Um trabalho voluntário, um curso de luxo. Mais números não sei bem mas lembro-me quanto custaram os primeiros nãos e como agora já não custam nada. Nem os sinto.
Custa apenas não ter uma data para isto acabar. Claro que nem tudo são espinhos. Moçambique não ficou chateado com a minha despedida e chamou-me de novo. Trabalho não de sonho mas que me deixa o ( precioso) tempo para tomar o pequeno-almoço com calma, beber o meu cappuccino instantâneo e ler e ver tudo o quanto é coisas que apetecem. Até demais. E andar de bike quando o tempo permite, calmamente até apetecer, e ir almoçar com o meu livro - companhia que ainda tenho que aprender a valorizar. Quando és freelancer falas tantos com livros, letras e canecas que ao fim do dia não há mais assunto.
- Então o que fizeste hoje?
- Queres mesmo saber? Olha, acabei os textos sobre um rent a car e uma promoção de cereais - s e x y y y y - e fui ao M&S comer uns couscous com frutos secos mais um sumo de laranja de Valência - sim, de Espanha e não do Algarve. Depois, já que estava ali e as orelhas ainda choravam o vento de 6 graus ( nota, nunca andar de bicicleta no Inverno com as orelhas ao leu), fui ao H+H, o meu antigo cafezinho em London Wall. Lá bebi o meu soya latte descaf que desta vez até foi um flat white e pus a conversa em dia com o M e a M, os meus dos polacos queridos. Como tinha tempo, ainda provei uns frutos secos que apareceram agora no mercado, "mais suculentos e cheios de açucares naturais", explicou-me o promotor que afinal era o dono. Mais um bancário que após 10 anos de carreira deixou tudo para trás para se dedicar à fruta seca. Sweet. De resto nada de novo, o café continuava bom, as conversas más. E eu? Eu bem mais feliz que ontem porque tive a coragem de, no mesmo ano, despedir-me duas vezes. Mesmo sem nada em vista e com o mundo a dizer-me que não sou a pessoa certa para o que gostava de fazer.
Se custa não ter um trabalho fixo? Custa mais não saber o que nos faz feliz. Bom ano para todos.

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