Double trouble

E sai duas entrevistas para a menina ali do flat 14! Uma às 9:30, outra às 16:00, as duas na linha central, as duas em agências boas mas completamente opostas, as duas óptimas oportunidades de trabalho. Felizmente sobra tempo no meio para ir a casa almoçar uma massa, recarregar baterias de uma noite mal dormida dada a emoção do dia seguinte e pentear. Qual é o problema de pentear?
A primeira correu bem, a segunda também ( e olhem que, aqui do fundo, estive para desistir de ir até ao último segundo) mas isto não significa nada para além de estar mais confiante no meu inglês e capacidades, pondo o portugusismo de lado e tentando encontrar algum anglo-saxismo que possa haver, sei lá, nos olhos.
Procurar trabalho é difícil - bem sei que ninguém disse que ia ser fácil mas é difícil. Perceber como o mercado funciona, quem são o contactos certos, conseguir falar com quem toma realmente decisões, saber lidar com as respostas manhosas, não partir o computador com as não respostas. Tudo isto associado a uma quantidade de tempo livre enorme que tem que ser regrada, transformada em rotinas, rituais, hábitos. Tudo isto sem ter uma casa fixa, um salário seguro, um grupo de amigos, os almoços dos avós, os mimos dos pais. Tudo isto e os dias a passar, até as semanas. Já lá vão 3.
Felizmente desta vez não vim sozinha - mas já fui, para Cabo Verde, e não é o fim do mundo como se lê nas notícias. É um desafio, talvez menor que estagnar e não alargar os horizontes. Aqui tenho o J, internet ilimitada e uma mão cheia de potenciais amigos. Talvez nem uma mão mas já ajuda a começar a ter vida social e a sentir que aqui se pode construir uma vida e ser feliz.
Como alguns sabem, não é a primeira vez que estou sem trabalho - freelancer, between jobs, à espera, o que quiserem chamar, em comum tinham o facto de não receber um tostão nem dois que me pagassem as contas - calma, não me estou a queixar, sempre fui poupadinha e com família generosa. Também não é a primeira vez que venho para outro país por querer mais e diferente, seguir os sonhos que para muitos não farão sentido mas aos quais tento dar algum.
Por isso, meus queridos, não sei qual vai ser o resultado deste investimento todo - financeiro, psicológico, espiritual- mas de uma coisa é certa. Não me arrependo um único segundo de ter vindo. Nem mesmo sabendo que daqui a nada posso estar a servir imperiais num pub, lattes num café ou a dobrar roupa mal tratada pelo consumo numa loja qualquer. Qualquer que seja a opção, uma coisa é certa. Será com grande estilo e de cabeça erguida. 

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