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A mostrar mensagens de janeiro, 2013

Between jobs

Não é a primeira vez que me encontro between jobs mas é a primeira fez que o faço conscientemente. Quinta-feira em Maputo, dia de sol brilhante. (In)felizmente há coisas para fazer em casa. Depois de um pequeno-almoço demorado e as primeiras tentativas em arrumar as malas, salto para o computador de cappuccino na mão ( o conforto que estes pacotinhos de pó instantâneo me deram nestes últimos 2 anos). Devia era ir para a piscina, estão vocês a pensar. Mas ontem vendi o Jerinho - ooohhhh, o amigo e companheiro de tantas viagens- por isso a mobilidade está mais condicionada. E até é bom aproveitar os últimos momentos nesta casa. É engraçado como passou de pensão a lar. Sinto-me mesmo bem aqui. As poucas coisas que temos, o espaço, a luz, a segurança. Vou ter saudades dos pequenos-almoços demorados na varanda gradeada, dos jantares com gente a mais para os pratos, das distracções da Manucha, das inconveniências dos guardas, do colchão tipo pedra, até das mesmas músicas que tocam no iPod há...

Último dia

Chegou o último dia aqui na agência. Foram quase 2 anos de muito trabalho, muita luta, muitas discussões, muitos sorrisos, amigos, muitos conhecidos, muitas estórias para contar e muitas aprendizagens. Aprendi, acima de tudo a ouvir e a esperar. A ouvir os outros, as suas diferenças e a saber respeitá-las. A origem, a pele, as ideias, as culturas, os gostos musicais, a forma de falar português, até a cor das calças. A esperar pelo que há-de vir e pelo que nunca chega, pelos briefs e pelos feedbacks, pelas pessoas e pelos sumos. Chegou uma nova fase. Between jobs. Que bem que soa, que melhor que sabe. Entre alguns medos e outras coragens, há que saber aproveitar ao máximo este tempo e aprender o que daí vier. E como é que me sinto? Cheia de sono mas também cheia de energia.

Check in

Os meus mentores da escrita sempre disseram que se pode ( e deve?) usar estrangeirismos e outro ismos nos textos mas nunca dar um titulo em inglês. Presumo que isto sirva para francês, espanhol, changana, crioulo. E eu humildemente respondo. Para quê complicar se já existe uma palavra que diz na perfeição o que queremos dizer e, para além disso, é conhecida por todos? Seguem-se umas semanas de muitos checks e vários check ins. Bus para Joburg na 6a, Cape Town no Sábado, uma viagem de 3 semanas cujo destino está por desvendar, voo para Portugal dia 2 de Março, para Londres dia 5. No entretanto, há que acabar o portfólio em inglês, festejar aniversários importantes, o último dia de trabalho e ainda despedidas e mais copos, comidas e mais abraços. Life is good.

Vida boa

Quando vivemos num sitio acabamos por deixar de valorizar aquelas coisas que ao início nos provocam sorrisos. O que era exótico passa a atraso de vida, o sol quentinho passa a brasa destiladora, a descontracção engraçada passa a preguicite aguda. And so on. Não quando se tem um prazo para ir embora, período em que tudo passa a ter uma dimensão de elefante e as emoções oscilam que nem amplitude térmica do deserto. É aí que entra a piscina de um querido hotel cá do sitio. Que compensa todas as insónias, mau serviço, café queimado e até algumas nuvens. Que bem que se esteve no fim de semana com a C e a R a falar sobre a vida e parvoíces. Por que no final, é isso que fica e importa.

Oh!

Há uma pressa de viver, uma pressa de sentir o calor, o vento a bater na cara, o sol a queimar a pele. Há uma força que não descansa, que faz saltar da cama todos os dias antes do necessário, que faz querer aproveitar cada momento, cada bocadinho, provar cada sabor. Deve ser a mesma energia que faz querer levar todos no bolso, num malinha de capulana, todos os que marcaram estes últimos 2 anos aqui, todos aqueles que fizeram rir, chorar, saltar, desesperar, sonhar nesta terra lá longe. Depois da alegria inicial, do desprendimento, da leveza de deixar o que já não trás felicidade, chega a dor de largar tudo o que só trás alegria. E aí, nesse momento de sentimentos doidos, só há uma coisa a fazer. Escrever. Hoje está calor, muito calor. São mais de 30 graus logo pela manhazinha, ainda antes da cidade acordar. África tem destas coisas, as que prendem e não deixam sair. A cidade que é selva com os besouros a falarem uns com os outros a noite toda, o cheiro a húmidade quente, o calor que ...

Afinal

Afinal é uma expressão que utilizam muito por cá. Acho que é tipo o pois para nós. Se não sabes muito bem o que dizer, lança um afinal, alguém há-de agarrar. O há-de é outra expressão dessas. Na terra onde a única coisa que se pode prever é que nada se pode prever, o há-de vir dá para tudo. Para quem ainda não chegou, para o almoço que não chega, para o filho que não vem, para o salário que não é pago, enfim, podia passar aqui a tarde toda a falar nisto. Ou posso ir directa ao assunto e dizer que afinal não correu assim tão mal. A próxima entrevista há-de vir já em Londres. Oh yeah, fui shortlisted para a tal agência de que falava hoje. E estou feliz. Licão do dia: Don't over think. Afinal, algo há-de vir.

Depois da tempestade, a esperança

Ontem tive a minha primeira entrevista por Skype. Como quero mesmo entrar nesta empresa, uma agência boutique no centro de Londres, passei o dia todo a pesquisar e estudar sobre como me poderia sair o melhor possível. Varri o site da empresa de cima a baixo, tentei decorar os termos técnicos mais estratégicos, li dicas de como se faz uma entrevista destas, como responder às perguntas da praxe, como defender os pontos fortes e pontos fracos and so on. Ao almoço, ainda fui ter com C que me deu o seu mega apoio, fui comprar mil recargas para dados de Internet ( aqui os telemóveis carregam-se com códigos comprados na rua ou nos ATM, não é imediato e depois ainda tens que converter o crédito em dados), imprimi o formulário deles online e ainda enviei um e-mail a explicar que aqui a Internet não é propriamente a Internet como a conhecemos e que poderia falhar. Nesse caso, eu ligaria. Às 4 p.m GMT, 18h00 de cá, lá estavam eles a ligar para o Skype, cujo contacto já tinha adicionado há 3 dias...

Fui criticado, e agora?

Percebemos que crescemos quando recebemos uma critica e não ficamos chateados mas contentes. Recebi dois e-mails distintos de dois distintos headhunters de Londres, cada um com as suas dicas preciosas na pesquisa de trabalho na terra da senhora majestade. Aqui ficam 3 a não esquecer. - Se queres candidatar-te para x, mantém o CV orientado para isso. Se me estou a candidatar para um cargo de consultoria energética pouco acrescenta dizer que já servi cafés. Guarda esses skills para quando quiseres trabalhar no Monocle Cafe. - Cuidado com as traduções que fazem perder a força das ideias. Isto é, evitar ao máximo as traduções literais. Se não encontras a certa, mais vale não por nada, ninguém gosta de ler erros. Menos é mais. - A humildade é vencedora. Abrir o livro e deixar alguém criticar o teu trabalho só pode trazer boas coisas. Nem que seja para continuares a achar que assim é que está bem feito. Seja mostrar o CV, o portfolio, ou outra coisa qualquer. ...

Surpriseee

Este foi um fim de semana fora de série. 6a-feira à 1 da tarde estávamos a sair de Maputo rumo ao paraíso. Fomos para a fila do Batelão de Catembe à espera do pior mas melhor era impossível. Entrámos no primeiro barco e em menos de meia hora chegámos ao outro lado da Baia, prontos para 3 ou 6 horas de estrada não estrada. Este caminho é muito famoso por estas bandas. São 4 troços deliciosos, cada um com a sua particularidade: uma picada esburacada, uma estrada de alcatrão do tempo dos portugueses, mais uma esburacada picada na Reserva dos Elefantes (  nunca vi mais que macacos e vacas) e areia de duna. Acontece que desta vez foi tranquilo e em menos de 3 horas estávamos na fronteira com a África do Sul. A diferença é inacreditável. Já nos tinham falado e já tinha passado outras 3 fronteiras aqui da terra, mas nada como ver com os nossos olhos. De um lado, nada para além de terra batida, 2 casotas pre-fabricadas improvisadas e meia dúzia de agentes da autoridade fardados a preceito ...

Porquê Londres?

Porque sim, por tudo e por nada, por mil razões mas poucas racionais. Era uma vez uma menina de 6 anos que queria ser inglesa. Então foi estudar inglês e mais tarde lá foi à terra da Senhora Majestade. E voltou lá p'rai umas 8 vezes. E desta vai ficar um bocadinho mais tempo para pode absorver e aprender o máximo possível e, quiças, sair de lá a falar um super british. Lição do dia: Segue os teus sonhos. De preferência com os pés no chão mas se às vezes quase levantares voo também não tem mal, desde que saibas aterrar de novo.

Mudança de planos

Dia já não sei quantos. Não estou a gostar deste modelo de escrever os dias e as respectivas lições, até porque podem ser mal interpretadas. Acho que vou deixar o blog mais go with the flow. Hoje está a ser um dia africano normal: sem carro e com imenso calor. Também houve uma passagem de briefing desconexa, um projecto que andava aqui há uns meses e que, não por acaso, até tinha pegado mas não teve seguimento. Conclusão, tomei a melhor decisão. Chegou o momento de largar a zona de conforto e ir trabalhar para algum sitio que me deixe mais animada e eficiente, mais eu. Se tenho medo do futuro? Nem por isso. Se tenho medo de não arranjar trabalho? Tenho pânico ( até porque sou, vá, hiper exigente. Trabalho encontro de certeza nem que seja num café mas mesmo assim teria que ser um café bem giro e com coisas boas pois bem). Se tenho medo da decisão que tomei? Não, até porque já está mais que tomada. Lição de hoje: Chega de lições. E, olha, primeiro dia sem enviar um CV - bad girl.

London's calling

Dia 5. É o que dia em que despertas com um e-mail que não é resposta a um e-mail que enviaste. Passo a explicar. O ponto alto do meu dia foi logo de manhã quando abri o gmail e tinha lá as palavras da E a dizer que lhe enviaram o meu CV e que não podia ser melhor timing porque estão a recrutar um Brand Builder - sabem o que é? Eu também não sei muito bem mas é tipo um faz tudo do branding. Palavra puxa palavra e em pouco tempo já estávamos ao telefone. Em inglês, sem briefing a explicar o que devia fazer. Talvez demasiado espontâneo, talvez a emoção tenha superado a razão, não sei. Só sei que  falámos durante 15 minutos, em vários dos quais pus os pés pelas mãos mas também com alguns momentos de decisão. Vamos lá ver no que dá. Mesmo que não dê em nada, foi uma lufada de ar fresco. O mercado em Londres mexe e eu quero mexer com ele. Lição número 5: Espontaneidade é bom mas melhor é treinar o que dizer nas entrevistas, especialmente se não forem na tua língua, sejam por e-mail, te...

Procura-se trabalho

Dia 4. Foi preciso o Sandy voltar a Maputo para as ruas ficarem impossíveis de transitar, a luz natural não chegar para iluminar a sala da agência e a paciência estar a afundar com as inundações. Foi preciso mas chegou para falar-vos de como vai a pesquisa de trabalho em Londres. Vai bem, obrigada. Em apenas 5 anos de trabalho - as vendas na feira de artesanato, as horas intermináveis de babysitting, as terríveis como hospedeiras e as piores ainda como promotora de vinhos não contam para esta estatística - já trabalhei em 3 grandes agências de publicidade ( daquelas com siglas, que toda a gente sabe o que são mesmo quando não percebem nada da coisa), já escrevi para jornais com nome e revistas das antigas e das da moda online, já trabalhei como freelancer em agências mais pequenas e mesmo a sério, a trabalhar só com uma designer, já estive em Cabo Verde num instituto do estado que recebe fundos da UN Women, na altura UNIFEM, já trabalhei num cinema decadente a escrever projectos cultur...

Ninguém disse que era fácil

Dia 3. Segunda-feira. Agora é que é, primeiro dia da agência após a cartinha parece que a decisão não foi assim tão mal tomada. A chuva acalmou e o sol está a espreitar a toda a fé. Maputo continua fechado para férias mas a C já voltou de Portugal por isso fomos almoçar um wrap de frango ao Alegria que cai sempre bem, até porque os ONGs ainda não voltaram de férias e com menos gente o serviço tende a ser mais eficiente. Vou ter saudades destes almoços, destes dias ferventes, da calmaria, das conversas acesas e das fofocas melhores que os Morangos com Açúcar, coisas próprias da aldeia urbana. Não é fácil deixar um sitio que nos acolheu durante 2 anos, muito menos as pessoas que viraram amigos e passaram a família. Não vou dizer que temos cá tudo, mas temos muito: a casa, o trabalho, o carro, duas malas cheias de roupa de Verão gasta pelo uso, pelo tempo e pelo tanque. E os amigos, ai os amigos-daqueles-que-sempre-que-os-virmos-é-como-se-os-tivéssemos-visto-ontem. São a nova família, aqu...

Andar à chuva

Dia 2. O mau tempo continua em Maputo - as boas línguas dizem que é uma preparação divina para o fog londrino. A cidade das Acácias não tem cafés confortáveis para enviar mails de emprego, tem outras qualidades mas não esta. Também não tem Starbucks (um dia explico a minha pancada por esta cadeia capitalista e exploradora que para mim é sinónimo de conforto) nem Pois Cafés ou Vertigos. É normal, a cultura é outra, tal como o mood, o tempo, os tempos. Às vezes sinto que é mesmo isso. Os tempos aqui são outros, tudo parou no tempo. A construção, as pessoas, os hábitos. Se não fossem os telemóveis topo de gama e os carrões que aparecem novinhos cada dia, diria que ainda estávamos nos anos 60 e que o Pancho Guedes estava sentado aqui ao lado a pensar no que construir. Estou no Southern Sun, um dos melhores hoteis da cidade, dos poucos sítios que tem leite de soja para o galão ( e o único que sei que tem mas os empregados nunca sabem). Gosto de vir para aqui, sempre gostei, desde a primeira...

Estás feliz?

Dia 1. É sábado de manhã em Maputo, 9 horas e picos. O dia está cinzento mas menos molhado que as piores previsões do wind guru, o site que sabe tudo do vento e do tempo. Acordo cedo, demasiado cedo ou bastante antes de ter dormido as horas suficientes para o humor ser agradável aos outros durante todo o dia. Não importa, dá-se a volta. Ontem foi um grande dia, hoje também é mas, se pensarmos bem, quais é que não são? Sinto-me especialmente bem apesar da camisa de dormir amarrotada e do rabo de cavalo. Daqui a 2 meses, se tudo correr como o previsto, vou estar em Londres, um sonho de criança - what? nunca tiveram disto? Até lá, há o famoso mês para dar à casa, as despedidas à la cigana que já começaram ontem, a dificuldade em olhar para os amigos que ficam, os medos do que aí vem. Pois é, ontem despedi-me da agência, com carta e tudo. Como é que se faz uma carta destas? Procura-se no google e dá-se um toque de gentileza e dignidade pessoal. Simples mas com um carga gigante de porqu...