Oh!

Há uma pressa de viver, uma pressa de sentir o calor, o vento a bater na cara, o sol a queimar a pele. Há uma força que não descansa, que faz saltar da cama todos os dias antes do necessário, que faz querer aproveitar cada momento, cada bocadinho, provar cada sabor. Deve ser a mesma energia que faz querer levar todos no bolso, num malinha de capulana, todos os que marcaram estes últimos 2 anos aqui, todos aqueles que fizeram rir, chorar, saltar, desesperar, sonhar nesta terra lá longe.
Depois da alegria inicial, do desprendimento, da leveza de deixar o que já não trás felicidade, chega a dor de largar tudo o que só trás alegria. E aí, nesse momento de sentimentos doidos, só há uma coisa a fazer. Escrever.
Hoje está calor, muito calor. São mais de 30 graus logo pela manhazinha, ainda antes da cidade acordar. África tem destas coisas, as que prendem e não deixam sair. A cidade que é selva com os besouros a falarem uns com os outros a noite toda, o cheiro a húmidade quente, o calor que se entranha na pele a não sai nem com os banhos mornos, as cores que ferem a vista porque a marcam para sempre. Oh que viver aqui é tão bom, tão diferente de tudo.
Ontem fui jantar a casa da M e o F. Estavamos na varanda a grelhar um peixe serra médio com a boca meio aberta. A brisa do Sul refrescava a alma, o cheiro a grelhados abria o apetite que crescia com as entradinhas e o cocktail da casa com manga e maracujá. Olho à volta. As grades impedem a vista total. Aqui vemos o mundo como nos ensinaram nos cartoons, aos quadradinhos. Vejo as traseiras de casa deles, no Bairro Central de Maputo e lembro-me no médio oriente. O beje sujo, os cinzentos, as disparidades. Umas casas altas, outras baixas, umas com grades, outras sem portas. Há prédios de 10 andares e outros de 4, há anexos sem paredes com famílias inteiras a olharem para não se sabe bem onde. Há parabólicas, antenas tortas, puxadas de energias, churrascos no carvão, pessoas escondidas, surpresas com parabéns cantados, um aniversariante que deve ter deitado uma ou outra lágrima. Há 2 amigos há minha frente de quem já sinto falta. Fala-se de casamento, da vida, daqui e dali. Fala-se de sonhos, de medos, de como é bom estar cá, de como esta terra prende e deixa saudade. Parece que também se fala do outro lado de Moçambique, mas acho que ninguém quer ouvir, não hoje. Já estamos à mesa, tempo de sobremesa com frutas tropicais. A saudade parece querer superar o sabor das lichias. Mas agora é hora de ir para a piscina.

Comentários

  1. Quem espera sempre alcança e, como sempre digo, quando se é bom naquilo que se faz, há sempre o retorno. Nunca pares de sonhar porque os sonhos não são impossíveis, as vontades é que podem desaparecer.

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