Surpriseee

Este foi um fim de semana fora de série. 6a-feira à 1 da tarde estávamos a sair de Maputo rumo ao paraíso. Fomos para a fila do Batelão de Catembe à espera do pior mas melhor era impossível. Entrámos no primeiro barco e em menos de meia hora chegámos ao outro lado da Baia, prontos para 3 ou 6 horas de estrada não estrada. Este caminho é muito famoso por estas bandas. São 4 troços deliciosos, cada um com a sua particularidade: uma picada esburacada, uma estrada de alcatrão do tempo dos portugueses, mais uma esburacada picada na Reserva dos Elefantes (  nunca vi mais que macacos e vacas) e areia de duna. Acontece que desta vez foi tranquilo e em menos de 3 horas estávamos na fronteira com a África do Sul. A diferença é inacreditável. Já nos tinham falado e já tinha passado outras 3 fronteiras aqui da terra, mas nada como ver com os nossos olhos. De um lado, nada para além de terra batida, 2 casotas pre-fabricadas improvisadas e meia dúzia de agentes da autoridade fardados a preceito com cara de mau apesar dos mais de 30 graus que se faziam sentir à sombra. Do outro, estrada alcatroada, vários balcões sob uma construção de tijolo a até casa de banho com papel higiénico, huhu. E lá está, a estrada que nos leva a outra picada mas não sem antes de passar pelo super-mercado para comprar água e perder num caminho qualquer dado pelo GPS. Mais um hora e então sim, chegamos brindados por uma tempestade africana com trovões ruidosos e céu que passa de negro a iluminado em menos de nada. E um sumo de laranja com algo que se não é, sabe a Aloe Vera.

O Thonga Beach Lodge não é luxuoso, é bem melhor que isso. É um paraíso escondido no meio do mato, da Coast Forest de Kuazulu Natal. Demora a lá chegar e ainda bem, fica longe da civilização, longe dos bandidos, longe do ruído que não seja mar e insectos. São 24 cabaninhas bem camufladas, simples na decoração mas fortíssimas no conforto: cama imperador size, banheira com sais, douche gigante, até roupões fofinhos e pantufas. Tudo está pensado ao pormenor, nem mesmo o repelente o o Baygon são esquecidos. À volta, apenas a natureza e a chuva. Chegámos à hora de jantar, daqueles à revista de viagens: salada com espargos e ricotta, sopa de abóbora e caril, posta de peixe com legumes salteados, bife de avestruz com batatas assadas. Brownie e vinho tinto a copo. E ainda chegar ao quarto e ter o presente do aniversário de casamento: uma garrafa de Champagne - decorar a realidade nunca fez mal a ninguém. Dormir é cedo para aproveitar a manhã.

O dia seguinte acordou tão cinzento quanto quente. Depois de um pequeno-almoço delicioso com mil tipos de cereais, sementes e iogurtes, pão, muffins de leite condensado e noz e mini croissants, e ainda ovos mexidos com salmão ( o Thonga tem sempre uma opção quente do dia a la carte), quase que não havia espaço para o café. Então fomos passear pela praia e pelas dunas, sentar nas espreguiçadeiras preguiçosas a ler,  esperar pelo almoço também cheio de coisas óptimas - destaco o arroz árabe com cogumelos pretos e o caril de frango com camarão, suave mas que chega a todas as papilas. Para fazer a digestão, nada como um snorkling aventureiro num mar picado, que acabou com alguns arranhões mas também peixes coloridos vistos. E ainda tartarugas a nascer - isso mesmo, a partirem os ovos e iniciarem a sua caminhada até ao alto mar. Minimas, metade de uma mão mas com instinto gigante.

Infelizmente a chuva não parava e não pudemos aproveitar o sundowners num lago lá ao lado, famoso pelos crocodilos e hipos, como já vem a ser hábito. Tivemos que ganhar espaço para mais um jantar TOP. E ir dormir a sesta antes do highlight do fim de semana: o passeio das tartarugas. Saímos de 4x4 as 00h45. Noite cerrada, sem lua. A praia estava deserta e o mar agitava as ondas à medida que avançávamos. A primeira vez que o nosso guia nos mostrou as marcas das tartarugas na areia não queríamos acreditar. Pareciam marcas de pneus de Jeep de tão grandes que eram. Algo muito bom se previa. E assim foi. Apanhámos uma Leatherback a sair da água na paz, a escavar o ninho com as barbatanas da frente, a por ovos e a tapar o buraco com as barbatanas de trás. Estas tartarugas são as maiores do mundo ( podem chegar até 2 metros, a nossa tinha 1,7) mas têm a carapaça suave, tal como a pele. Após acabar o extase da desova, apareceram os guardas costeiros que a mediram, fizeram uma ecografia ( com gel e tudo, confirmando que ainda tinha ovos dentro dela - "This girl have turtles inside her") e lá seguimos o nosso caminho com aquele sorriso. No final, houve tempo para um chocolate quente com Amarula, o Irish Coffee africano e ainda ver uma Loggerhead, tartaruga bem mais pequena mas igualmente engraçada. Adoro tartarugas, agora ainda mais.

E a Natureza volta a ganhar.
Tudo, graças à R e ao seu presente que parecia envenenado e se tornou num envelope cheio de boas surpresas e energias. Obrigada, miúda. Já sabes, um fim de semana lá em casa, quando a tivermos.

É por estas e por outras que custa sair de África, mas está na hora. Lição do dia: segue os teus planos. No matter what, nem mesmo as tartarugas.

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